Numa época em que eu participava de fóruns de debates sobre música e festivais, tinha um rapaz que seguidamente perguntava se existia alguma fórmula para escrever letras. A pergunta sempre me pareceu interessante, na medida em que percebia que mesmo alguém detendo as melhores técnicas de escrita, não tinha garantia de sucesso.
Ao longo destes anos tive oportunidade de
conversar com muitos poetas, alguns se tornaram parceiros musicais, e sempre
tive curiosidade quanto ao processo criativo. Sempre me indaguei o que
transforma algumas estrofes em obras de arte.
Não descobri uma fórmula, mas acho que a regra
de escrever o primeiro verso de tal maneira que o leitor tenha interesse em ler
o próximo verso, repetindo o mesmo processo até o fim, me parece um bom
caminho.
Como fazer isso?
Há ferramentas que me parecem ser os
instrumentos mais recorrentes para esse propósito. Tudo aquilo que se diz, sem
dizer, as famigeradas entrelinhas, esse caráter de esfinge “decifra-me ou te
devoro” desperta o interesse do leitor, faz com que ele permaneça na obra além
do tempo despendido na leitura.
Outro elemento que valoriza a construção
poética são as imagens. Pode-se derramar tudo o que se sente no papel, porém
isso não implica que o leitor vá sentir o mesmo. A poesia transcende a face
meramente informativa do texto para também provocar algo no leitor.
Para encerrar com um exemplo, na construção de
um poema podemos estar falando de alguém que está surpreso com os prédios de
uma metrópole. Há várias formas de descrever isso:
-Viu um prédio grande;
-viu um prédio enorme;
-viu um prédio gigante.
As três formas têm significado para o leitor,
mas é possível que não causem a mesma sensação de espanto que era proposto pelo
poema. Mesmo exemplo anterior usando o recurso da imagem:
-Era como se o chão arranhasse o céu com suas
unhas de concreto.
Já não estou só falando de uma visão de prédio
homéricos, mas colocando o leitor dentro do espanto de quem vê esses gigantes
de concreto pela primeira vez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário