domingo, 23 de maio de 2021

B A N C O S


 

Tornar a escrita uma prática diária é um desafio. Nem sempre dispomos de tempo ou ideias quando estamos diante da folha em branco.

 

Um método que acabei por adotar de outras áreas da escrita que andei estudando durante a pandemia, é o chamado banco de ideias, que para a escrita poética adaptei como o banco de versos e o banco de estrofes.

 

Desde que comecei a escrever adotei a prática de colecionar frases que me pareçam ter um potencial poético, pode ser uma junção aleatória de palavras que desperte sentidos poéticos e/ou que se encaixe em alguma métrica, sua sonoridade, enfim.

 

Porém, agora em vez de escrever em folhas avulsas dispersas ou em incontáveis arquivos no computador, estão todos os versos em um único arquivo, organizados conforme o número de sílabas métricas que mais costumo usar (12, 10, 7 e 5).

 

Quando estou querendo escrever, mas não há nenhuma ideia rondando meus pensamentos, recorro ao banco de versos para tentar dar continuidade a algum verso, ou mesmo escrever um verso novo.

 

Tento escrever ao menos um verso por dia, ou dar continuidade a algum verso solto até se tornar uma estrofe e então ser promovido para o banco de estrofes, que é um arquivo que segue a mesma lógica do banco de versos.

 

Quando um conjunto de estrofes ganha corpo, são apartadas para um arquivo autônomo (isso costuma acontecer após a quinta estrofe escrita, mas não é uma regra). Em alguns casos já saem do banco de estrofes batizadas.

 

Esse método ajuda a manter uma rotina de escrita, além de evitar aquele sentimento de angústia diante da folha em branco, afinal de contas, estamos diante de um campo repleto de sementes no banco de versos.

 

Não é preciso esperar que a primavera da inspiração traga a florada dos versos, basta que a cada dia se vá regando um pouco as sementes.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

P R O J E T O

 

O livro “O caminho do artista” não só me ofereceu ferramentas para trabalhar com meus bloqueios, mas também propôs a construção de um fluxo de criação através do compartilhamento de conhecimento sobre o próprio processo criativo.

 

Lembrei de quando comecei a escrever e percebi que embora conceitos basilares da poesia como verso, métrica, estrofe, etc estejam disponíveis em livros de literatura (e hoje na internet), não são temas muito populares, sendo necessário garimpar atrás deles.

 

Foi assim que surgiu a ideia de criar um perfil onde compartilharia esse conhecimento, porém usando como exemplo os poetas do movimento nativista que foram uma referência no tema pra mim.

 

A ideia inicial era postar apenas matéria técnica, mas entendi que haviam vários textos onde refletia sobre o meu processo criativo e de outros autores que poderia ser interessante para a criação deste fluxo criativo.

 

Ao vencer crenças que limitavam a minha criatividade comecei aos poucos a racionalizar parte do processo, utilizei ferramentas de escrita de outras áreas (comédia, roteiro, etc) para implementar uma rotina de escrita.

 

Produzir conteúdo para esse perfil trouxe a leitura de poesia novamente ao meu cotidiano, hábito que havia abandonado devido as atribulações profissionais.

 

Além de estar lendo poesia com frequência de novo, estou racionalizando o processo criativo com mapas mentais, repositório de versos e estrofes, entre outras ferramentas visando criar uma rotina de escrita poética.

 

O meu projeto, além de compartilhar informações sobre o processo criativo poético é escrever um livro de poesia.

 

Esse na verdade é um projeto bem antigo que eu tenho, mas durante muito tempo coloquei a responsabilidade de escrever os poemas na mão da inspiração.

 

Quando terminei de digitar todos os rascunhos que tinha guardado e tirei a foto daquele amontoado de papeis amassados eu pensava: ainda tenho muita coisa pra dizer.

 

Pretendo compartilhar parte desse processo aqui, porém sempre tentando manter a proposta inicial de compartilhar ferramentas de escrita.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

I N S P I R A Ç Ã O


Durante muito tempo fui influenciado pela crença da inspiração. Acreditava que o poema era praticamente resultado de uma criação espontânea do meu espírito poético, ou da minha alma (para não fugir do lugar comum).


Hoje entendo que acreditar na ideia de que o poema é fruto da inspiração pode ser uma armadilha para quem escreve, posto que torna o ato criador algo sagrado e o que é sagrado não se questiona, não se discute, simplesmente se aceita.


Da mesma forma, conceber o que se escreve como produto da inspiração naturaliza uma posição passiva com relação à criatividade, o que pode nos levar a aceitação de períodos, às vezes longos, sem escrever, o que entendo contribui para uma espécie de ferrugem poética.


A crença na inspiração nos leva a passar horas diante do computador esperando a sua visita, o que nos conduz a habituar-se com essa rotina de espera e angústia, na expectativa de que os versos desçam dos céus, dançando com as rimas, direto para a folha em branco.


Portanto, é importante termos consciência de que cada verso, por mais espontânea que seja a sua concepção, é fruto do trabalho intelectual de quem escreve. (A menos que a obra seja psicografada)


Por isso, hoje defino a inspiração como o trabalho que o nosso cérebro faz quando a gente não está vendo. A nossa mente é fabulosa, não para nem quando estamos dormindo, e enquanto trabalhamos com o lado consciente do nosso cérebro, nosso subconsciente está lapidando versos e imagens que nos chegam como se fossem soprados no ouvido.


Com este entendimento, aliando ferramentas que racionalizam o processo criativo e oferecem um cordão para nos ajudar a sair do labirinto, aos poucos se estabelece uma rotina criativa.


Embora hoje veja a inspiração sob uma perspectiva racional, concordo com o que disse Pablo Picasso:


“Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando.”


sexta-feira, 14 de maio de 2021

E U L Í R I C O

Um amigo questionou um tempo atrás se o "eu lírico" seria, digamos, a voz que fala em todos os poemas ou se o poeta elegia a obra onde ele mesmo, poeta, ou eu lírico falaria.

Respondi na ocasião que entendia que tecnicamente em todo o poema é o eu lírico que “fala”, até porque a obra deve existir além do autor.

Porém, somos massacrados ao longo da vida escolar com a ideia de "o que o autor quis dizer?", que acabamos confundindo a voz própria do poema (eu lírico) com a voz do poeta, que não "pensam" necessariamente o mesmo.

Chico Buarque não precisou pôr um vestido curto, uma peruca e fazer um programa na zona portuária pra escrever Geni e o Zepelin. (essa piada é só a título ilustrativo)

No começo da caminhada poética o próprio autor não tem consciência do "eu lírico", ao escrever o autor se confunde com o eu-lírico, exercendo uma espécie de fidelidade entre eu-lírico e autor, que, às vezes, empobrece o texto.

Aos poucos o autor, me parece, vai adquirindo maturidade pra entender que ele pode escrever coisas diferentes do que ele pensa ou acredita, que pode escrever de outro ponto de vista.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

D I S S E C A N D O I

 



Entendo dissecar versos, não com um viés anatômico e frio, mas semelhante a um pintor que contemplando uma obra durante um longo tempo transcende o olhar de fascínio e admiração, buscando antever a execução de cada traço.

 

Ao ler repetidas vezes um poema, ultrapassamos a beleza de um verso para contemplar a sua construção, aos poucos vamos percebendo recursos construtivos que num primeiro momento nos eram imperceptíveis.

 

Escolhi “Quando o verso vem pras casa” para começar. Com melodia do Luiz Marenco, essa letra foi 1º lugar da IX Tafona da Canção Nativa - Osório em 1997 e recebeu também o Troféu Vitória do Governo do Estado do RS como melhor música de 1997.

 

A leitura reiterada do poema me permitiu perceber que estruturalmente, a primeira e a última estrofe são mais descritivas do ambiente, começando com a ideia de amplidão do fim de tarde na primeira estrofe e findando com a imagem mais intimista de um galpão na última.

 

Nas quatros estrofes do meio se desenvolvem as ações do “protagonista” do título da letra, o verso. O que chama atenção é que se ao lermos o poema substituirmos a palavra “verso” por “homem”, o poema segue fazendo sentido (não o mesmo sentido, óbvio).

 

Porém, ao personificar o verso, que é um conceito abstrato, vestindo-o com os costumes de um homem de campo, o poema se enriquece de sentidos.

 

Esse método de atribuir condutas humanas a um termo abstrato é bastante usual, sendo um bom recurso criativo a ser experimentado no fazer poético. Por exemplo, quais ações o “sonho” pode ser protagonista? Seria um “sonho” andarilho ou um “sonho” que não conhece o outro lado da porteira?

 

Espero que esse texto tenha sido instigante sob o ponto de vista criativo. Curta, compartilhe com amigos que se interessam por escrita poética e conta nos comentários quais elementos dessa letra te chama atenção numa leitura mais acurada.

 

#poesia #escritacriativa #criaçãopoética #processocriativo

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

H Á B I T O

 

Percebi que embora existam diversas maneiras de se organizar para escrever, é muito comum os autores assumirem uma postura passiva no ato de escrita. Influenciados pela crença da inspiração, aguardamos o momento que essa musa venha para iluminar os nossos pensamentos.

 

Hoje entendo que essa postura pode levar o autor a encarar a obra como uma dádiva que recebe e não um trabalho intelectual que realiza. Além disso, acabamos fazendo de forma interna (mental) diversos processos que podem ser exteriorizados e analisados no papel.

 

Claro que há momentos em que as palavras nos chegam num fluxo e nos convidam a bailar através da correnteza dos versos. Porém, muitas vezes temos apenas um lampejo que nos entrega uma ideia, um verso ou até mesmo uma estrofe, depois travamos diante dos caminhos ainda desconhecidos do poema nascente.

 

É comum nos sentirmos perdidos diante de uma estrofe ou de alguns versos que mal nos apontem um rumo, é como entrar num labirinto sem o cordão do novelo de Ariadne pra nos ajudar sair. Além disso, nosso corpo e nossa mente se acostumam com o processo de permanecer durante longos períodos diante da folha em branco caçando palavras à esmo, o que pode ser viciante.

 

Por isso se mostra importante exercitar o ato de escrever de forma constante, como forma de romper essa armadilha mental e comportamental. A simples digitação de textos pode ser um exercício que auxilia na quebra desse padrão.

 

Pode-se começar digitando textos de outros autores, esse processo visa inicialmente apenas modificar o padrão mental que pode ser criado ao se permanecer grandes períodos de tempo buscando inspiração para escrever.

 

Podemos não perceber, mas nosso corpo e nossa mente começam a se nutrir dos sentimentos que nos afligem enquanto estamos diante da folha em branco. Por isso é importante quebrar essas armadilhas comportamentais, bem como usar ferramentas que vão nos servir como o cordão de Ariadne para nos tirar do labirinto, mas isso é tema pra um próximo texto.

 

#poesia #escritacriativa #criaçãopoética #processocriativo

quinta-feira, 6 de maio de 2021

I M A G E M

 

Numa época em que eu participava de fóruns de debates sobre música e festivais, tinha um rapaz que seguidamente perguntava se existia alguma fórmula para escrever letras. A pergunta sempre me pareceu interessante, na medida em que percebia que mesmo alguém detendo as melhores técnicas de escrita, não tinha garantia de sucesso.

 

Ao longo destes anos tive oportunidade de conversar com muitos poetas, alguns se tornaram parceiros musicais, e sempre tive curiosidade quanto ao processo criativo. Sempre me indaguei o que transforma algumas estrofes em obras de arte.

 

Não descobri uma fórmula, mas acho que a regra de escrever o primeiro verso de tal maneira que o leitor tenha interesse em ler o próximo verso, repetindo o mesmo processo até o fim, me parece um bom caminho.

 

Como fazer isso?

 

Há ferramentas que me parecem ser os instrumentos mais recorrentes para esse propósito. Tudo aquilo que se diz, sem dizer, as famigeradas entrelinhas, esse caráter de esfinge “decifra-me ou te devoro” desperta o interesse do leitor, faz com que ele permaneça na obra além do tempo despendido na leitura.

 

Outro elemento que valoriza a construção poética são as imagens. Pode-se derramar tudo o que se sente no papel, porém isso não implica que o leitor vá sentir o mesmo. A poesia transcende a face meramente informativa do texto para também provocar algo no leitor.

 

Para encerrar com um exemplo, na construção de um poema podemos estar falando de alguém que está surpreso com os prédios de uma metrópole. Há várias formas de descrever isso:

 

-Viu um prédio grande;

 

-viu um prédio enorme;

 

-viu um prédio gigante.

 

As três formas têm significado para o leitor, mas é possível que não causem a mesma sensação de espanto que era proposto pelo poema. Mesmo exemplo anterior usando o recurso da imagem:

 

-Era como se o chão arranhasse o céu com suas unhas de concreto.

 

Já não estou só falando de uma visão de prédio homéricos, mas colocando o leitor dentro do espanto de quem vê esses gigantes de concreto pela primeira vez.

terça-feira, 4 de maio de 2021

T R A J E T Ó R I A



Confesso que eu estava relutante em publicar algo de minha autoria, com receio de tropeçar na vaidade. Mas, considerando que esse é um perfil, sobretudo, de experiências poéticas, compartilhar o próprio processo criativo cumpre essa proposta.


Como já dito em outros textos, passei alguns anos sem escrever um poema por completo. Escrevia alguns versos e estrofes que ficavam sempre embrionários, em sucessivos arquivos no computador.

Porém, numa das fases em que entrava em uma espécie de frenesi poético, escrevi “Pelos porões da loucura”, que nada mais é do que um retrato poético das imagens chocantes do livro “Holocausto brasileiro” da jornalista Daniela Arbex.


Esse livro, em síntese, retrata os horrores que aconteciam em um manicômio na cidade de Barbacena/MG. Após a leitura passei alguns dias, talvez semanas, gestando aquelas imagens perturbadoras.

O processo de construção do poema foi mais intuitivo do que consciente, foi escrito como uma epifania de transformar em versos aquelas imagens, tentando transmitir a mesma sensação perturbadora do livro.


Esse foi um dos poucos trabalhos escritos nesta época que gostei, algum tempo depois inscrevi esse poema para o prêmio Carlos Drummond de Andrade de poesia realizado pelo SESC-DF, foi a primeira vez participei de um concurso de poesia.

Apesar da euforia de ser selecionado para um certame nacional, durante muito tempo mantive o poema guardado, apenas recentemente postei nas redes sociais. Nesta oportunidade, o canal conta comigo, que atua na área da saúde mental, pediu autorização para publicar o poema em sua conta no Instagram.

A investigação do meu processo criativo me permitiu entender que a leitura de crônicas que retratam uma realidade mais crua é um fator que estimula a minha sensibilidade, abrindo portas para a criação poética.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

R E G R A S


 Estes dias conversava com um amigo poeta sobre a técnica, ou a ausência dela, numa obra. Utilizei uma frase do Glênio Fagundes para ilustrar o que penso “O que mata a sede é a água e não o copo”.

 

Assim como um cantor que nunca fez uma aula de técnica vocal pode nos encantar e outro que detém todo um arsenal de recursos técnicos nos ser indiferente com seu canto, na poesia a técnica não é o fiador de um bom poema.

 

Entendo que as técnicas de escrita poética estão aí como recursos à disposição de quem deseja adquirir consciência para aperfeiçoar sua obra, ou mesmo para quem deseja subverter estas regras clássicas.

 

Com relação ao tema métrica, gosto sempre de lembrar das palavras do Mario Quintana:

 

“[...]

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico.[...]”

 

No gancho do Mario Quintana e do Glênio Fagundes podemos entender que é possível se matar a sede com água pura na palma da mão, ou seguir com sede ao provar de água salobra em copo de cristal.

 

Hoje entendo que a regra primordial na criação poética seja a seguinte: escreva o primeiro verso de tal maneira que o leitor tenha interesse em ler o próximo verso. Repetir esse processo até o final, dando um desfecho instigante.

Livros e o troféu do 17° concurso literário Mario Quintana

📚 Ontem chegaram pra mim os livros e o troféu de 3° lugar no 17° concurso literário Mario Quintana, realizado pelo Sintrajufe/RS. 📜 No com...