Durante muito tempo fui influenciado pela crença da inspiração. Acreditava que o poema era praticamente resultado de uma criação espontânea do meu espírito poético, ou da minha alma (para não fugir do lugar comum).
Hoje entendo que acreditar na ideia de que o poema é fruto da inspiração pode ser uma armadilha para quem escreve, posto que torna o ato criador algo sagrado e o que é sagrado não se questiona, não se discute, simplesmente se aceita.
Da mesma forma, conceber o que se escreve como
produto da inspiração naturaliza uma posição passiva com relação à
criatividade, o que pode nos levar a aceitação de períodos, às vezes longos,
sem escrever, o que entendo contribui para uma espécie de ferrugem poética.
A crença na inspiração nos leva a passar horas
diante do computador esperando a sua visita, o que nos conduz a habituar-se com
essa rotina de espera e angústia, na expectativa de que os versos desçam dos
céus, dançando com as rimas, direto para a folha em branco.
Portanto, é importante
termos consciência de que cada verso, por mais espontânea que seja a sua
concepção, é fruto do trabalho intelectual de quem escreve. (A menos que a obra
seja psicografada)
Por isso, hoje defino a inspiração como o
trabalho que o nosso cérebro faz quando a gente não está vendo. A nossa mente é
fabulosa, não para nem quando estamos dormindo, e enquanto trabalhamos com o
lado consciente do nosso cérebro, nosso subconsciente está lapidando versos e
imagens que nos chegam como se fossem soprados no ouvido.
Com este entendimento, aliando ferramentas que
racionalizam o processo criativo e oferecem um cordão para nos ajudar a sair do
labirinto, aos poucos se estabelece uma rotina criativa.
Embora hoje veja a inspiração sob uma
perspectiva racional, concordo com o que disse Pablo Picasso:
“Que a inspiração chegue não depende de mim. A
única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando.”
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